Obrigado!

unknown person holding balloons outdoors

Eras uma chata do caraças. Sabes disso, não sabes? Eras uma força da natureza. Quando metias algo na cabeça ias até ao fim. E isso tanto me irritava, quanto inspirava. As nossas discussões eram sempre acesas. Quando terminavam eu sentia que tinha levado um enxerto de porrada. Contudo, aprendi tanto com elas.

Foste a pessoa que mais acreditou em mim. Mesmo quando eu próprio não acreditava. Não imaginas o quanto me fizeste crescer. O quanto me levaste a sair de uma zona de conforto em que eu estava instalado desde o início da minha existência. Tantas vezes te quis agradecer por isso. Fui adiando por uma questão de orgulho estúpido e por julgar em que algum dia eu perderia a vergonha e te diria o que significavas para mim. Pensamos que temos a vida toda e num ápice tudo muda…

Conforta-me o facto de saber que foste feliz durante algum tempo e que eu tive alguma responsabilidade nisso. Gostaria que tivessemos tido mais tempo. Desejei tanto isso.

A nossa relação foi curta, mas foi a mais intensa que alguma vez tive. Nunca me senti tão vivo. Nunca me senti tão grato por estar vivo.

Há muito que fiz o luto. Chegou a hora de te agradecer, ainda que a título póstumo. Obrigado por tudo!

Por ti, mantenho acesa a chama. esta vontade (tão tua) de querer desfrutar da vida. Sei que te devo isso.

Conto

people on beach during daytime
De Fawaz Buqammaz via Unsplash

Era uma tarde como tantas outras naquele inverno quase primaveril. O sol brilhava e a temperatura estava agradável para um passeio. Um passeio à beira mar a só como tantos outros.

O passeio tinha um fim. O encontro com amigos para uma tarde de copos e muita conversa à mistura. Claro que ele ouvia mais do que falava. Era quase sempre assim.

Encontra os amigos num café à beira mar plantado que era o ponto de referência para muitos encontros e desencontros. Repara que no grupo estão alguns elementos novos. Ele que já não se encontrava com o grupo fazia uns meses. Uns meses que representavam um dos muitos períodos de isolamento auto-infligido. Apesar de ter um ciclo social considerável ele não conseguia evitar de se isolar durante largos períodos.

Não tarda, começam a apresentá-lo ao resto do grupo. Dos novos elementos o seu maior foco está está uma rapariga ligeiramente mais jovem e sempre sorridente. Apesar do esforço ele não consegue desviar o olhar da jovem que sorri para ele. Naqueles momentos a animação existente no grupo é algo difusa e distante. Apenas há espaço para o sorriso da rapariga.

Final de tarde e começam todos a despedir-se e a marcar encontros para a noite. Ele desmarca-se dos encontros noturnos e prepara-se para ir embora quando a rapariga dispara. “Não tenho ninguém em casa e tenciono jantar fora. Ninguém me quer fazer companhia?” De imediato um dos amigos pega-lhe pelo ombro como se ordenasse para fazer companhia à moça. “E-Eu adoraria”. Responde soluçando.

No restaurante as palavras não saem. No principio nem lhe importava muito pois bastava-lhe apreciar o olhar da rapariga à sua frente. O olhar e aquele sorriso irradiante. Com o evoluir do tempo começa a sentir-se desconfortável. “Preciso de dizer algo mas o quê?” Pergunta-se  a si próprio. Ela parece mais confortável e pergunta “Há quanto conheces o pessoal?”. “Ui! Mais de 10 anos. Temos tantas histórias juntos”. E começa a partilhar algumas das aventuras e desventuras daquele grupo de amigos.

Ele insiste em a acompanhar a casa a pé, apesar do percurso ser inverso ao da sua casa. Quando ele se prepara para se despedir, ela abraça-o deixando-lhe desarmado. Ele é invadido pelo doce aroma da rapariga e pelo seus cabelos que pareciam seda. “Obrigado por me fazeres companhia! Gostei muito deste tempo contigo”. Confessa a rapariga voltando a sorrir.