João Tordo – A Mulher que Correu Atrás do Vento

Descobri João Tordo em 2017 com “O luto de Elias Gro”. Não foi um livro fácil de ler. Provavelmente não deveria começado a descobrir Tordo por ai, mas apaixonei-me pela sua escrita. O carácter melancólico das suas obras depressa se entranhou em mim. Ou não fosse eu um melancólico.

Com alguns hiatos pelo meio li “O ano sabático”, “Ensina-me a voar sobre os telhados” e o fantástico thriller “A noite em que o Verão acabou”. Terminei agora de ler “A mulher que correu atrás do vento” e tenho para leitura o novo “Águas Passadas” e o seu antecessor “Felicidade”. Ainda tenho muito por onde descobrir João Tordo mas o que já li coloca-o como o meu escritor português preferido da atualidade.

“A mulher que correu atrás do vento”, que terminei de ler, não é um livro fácil, tal como não tinha sido “O luto de Elias Gro”. Contudo, se “O luto de Elias Gro” remonta a algumas das facetas mais obscuras da humanidade também demonstra o que há de mais luminoso em nós. Em “A mulher que correu atrás do vento” nem isso. São histórias de 4 mulheres repletas de sofrimento, numa obra densa e até mesmo pesada.

São 4 histórias interligadas (sobre 4 mulheres) apresentadas aos tropeções, baralhando o leitor para no final ligar todos os pontos. Não querendo me alongar sobre as histórias (podem ser consultadas na sinopse abaixo), afirmo que este é um livro sobre a culpa, o remorso, o abandono e a solidão. Sobre o que aconteceu mas acima de tudo do que poderia ter acontecido. Um livro que também convida à reflexão.

“Então chega o momento em que eu explico a razão deste livro, que não é sobre o que foi, mas sobre o que poderia ter sido.” (p. 436)

Dos livros que li de Tordo, este é o que apresenta uma narrativa mais ambiciosa e complexa mas em que o escritor consegue dar a volta e ainda apresentar uma surpresa no final do livro. Será preciso algum tempo para o digerir. Provavelmente o voltarei a revisitar mais tarde.

Entra na estação do metropolitano e deixa-se ficar uns segundos encostada à parede, ao lado do mapa da linha. A estação está praticamente vazia, mas o último comboio da noite ainda não partiu. Toda ela pinga, e a água rapidamente forma uma poça aos seus pés. Tirita de frio. Ocorre-lhe um pensamento estranho mas, de alguma maneira, consolador: é o mês de Março de 1992, o último Março da sua curta vida.

Já chega. Chega.

Atravessa o átrio da estação. Algumas pessoas — sobretudo jovens — cruzam-se com ela; dois rapazes olham-na, um deles assobia e o outro diz qualquer coisa que se perde na densidade dos túneis. Beatriz tira da carteira o passe do metropolitano e atravessa o torniquete, perguntando-se se Orfeu, ao resgatar Eurídice, terá mostrado o bilhete ao barqueiro. É uma ideia estúpida, porque Orfeu queria tirá-la do limbo onde vagueiam os mortos, enquanto ela — Beatrice Portinari, a de La Vitta Nuova, beatífica, a que substitui Virgílio na condução dos vivos para o Reino dos Céus — é para lá que se dirige. Desce as escadas e chega à plataforma. Da ogiva de onde chegam as carruagens vem o barulho ruminante e metálico das rodas nos carris, a electricidade combinada de milhares de volts em constante ebulição. Um vento quase morno atravessa a plataforma.

Chega a meio e fecha os olhos. Sente a brisa com cheiro a mercúrio, e há a imagem de um filme que lhe entra na mente escurecida: o carro de Brigitte Bardot e Jack Palance destruído por um comboio, os dois mortos, a beleza assassinada num mundo que castiga o mal-entendido, a decepção. Há outras pessoas na plataforma, espalhadas aqui e ali, ninguém que pareça prestar atenção à rapariga de roupas ensopadas e de olhos fechados cujos pés já ultrapassaram a linha amarela que, na faixa de cimento, adverte os utentes da proximidade do perigo. Os carris começam a tremer com a vibração da carruagem prestes a surgir. A sua última memória, decide ela, será da mãe: dos dedos dela nos seus, do cheiro almiscarado da progenitora, desses breves momentos de felicidade.

Beatriz não o sabe, mas há alguém que, atrás de si, a observa com muita atenção. É uma miúda de olhos enormes, fundos como o negrume de um poço, a única verdadeira testemunha da sua morte, no preciso momento em que as carruagens entram na plataforma com a fúria das coisas sem alma e perfuram o silêncio.

Sinopse

1892, Baviera. Lisbeth Lorentz, uma professora de piano, apaixona-se por um aluno de 13 anos que sofre de autismo. Ao descobrir que ele é um prodígio, instiga-o a compor um concerto durante as aulas e, um dia, sem explicação, fá-lo desaparecer.

1991, Lisboa. Beatriz, uma estudante universitária —que sonha com o toque das mãos da mãe falecida —envolve-se com o autor d’A História do Silêncio, um romance sobre Lisbeth Lorentz. Ao mesmo tempo, enquanto voluntária num abrigo para mendigos, Beatriz conhece Lia, uma jovem adolescente com um passado incógnito e um presente destruído.

1973, Londres. Graça Boyard, portuguesa, dá à luz a primeira e única filha. Fugida de Lisboa durante as cheias de 1967, para escapar à tirania do pai e à mordaça da ditadura, regressa à capital após a Revolução, tornando-se uma actriz de renome —e abandonando a filha ainda criança.

2015, Lisboa. No consultório de uma terapeuta, Lia Boyard desfia a sua história, dos anos de mendicidade ao momento em que decide procurar a mãe. É aqui que começam a unir-se as pontas de um romance a várias vozes: a história de quatro mulheres – Lisbeth, Graça, Beatriz e Lia – que atravessam um século de História e diferentes geografias, unidas por uma força que transcende a própria vida.

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