Conto

man and woman hugging near sea during golden hour
De Christiana Rivers via Unsplash

Dez anos depois. Era tempo de confinamento devido ao Covid-19, uma doença altamente viral que virara o mundo de pantanas. Com o confinamento as hipóteses de estar com a sua amiga diminuíram. Ele que sempre tivera a tendência de se isolar pensou que iria lidar bem com o confinamento. Não lidou. Com o avançar dos períodos de confinamento ele desesperava pelo regresso à antiga vida.

Meses depois, com a evolução da vacinação o pais atinge imunidade de grupo. É tempo de se voltarem a ver. “Desta vez não vou esconder mais os meus sentimentos. Vou contar tudo”. Refletiu ele. O longo período de afastamento infligido pelo vírus permitira-lhe pensar melhor sobre a sua vida.

Ambos se reencontram e é notória a alegria que transbordam. Passam uma tarde a sorrirem com as suas histórias no período Covid.  “Tenho de lhe contar. É agora.” Ele enche o peito e se prepara para confessar os seus sentimentos mas é surpreendido. “Tenho cancro. Vou ser operada para a semana. Depois começo quimioterapia”. Naquele momento sentiu que o céu lhe caíra em cima. Invadira-lhe um misto de tristeza e revolta. Revolta pela situação da amiga e pelo tempo que poderia ter desfrutado com ela e que não o fez devido aos seus medos infantis. Agora é o fim.

Ele conforta-a e tenta anima-la. “Vais ver que vai correr tudo bem”. Remata ele. “Tu és forte”.

“Não. Não é o fim. Não posso deixar de ignorar o que sinto” Reflete. Volta a encher o peito e dispara um “Amo-te! Sempre te amei!”.

Dois anos depois numa tarde de um inverno quase primaveril. O sol brilhava e a temperatura estava agradável para um passeio. Só que esta não era uma tarde como todas as outras. Os dias de solidão faziam parte do passado. Aquele passeio à beira mar estava a ser feito na companhia dela. Ela vencera a doença e ambos finalmente confessaram o que sentiam um pelo outro.

Pouco depois juntam-se com o grupo de amigos no café do costume. Conversam todos muitos animados mas aquela animação, não sendo difusa como outrora, é pano de fundo para a troca de olhares, sorrisos e confidências entre os dois. Sempre com as mãos dadas. Mãos agora adornadas pelas alianças nos seus dedos anelares. Agora sim, eram mesmo inseparáveis.

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Maria Ramos

Gostei muito do conto. Esperava por um final feliz.
Parabéns

Andreia Neves

Está muito bonito. Gosto do toque de vulnerabilidade.

Carla Sofia

Recheado de subtilezas e vulnerabilidades. Adkrei!

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