Obrigado!

unknown person holding balloons outdoors

Eras uma chata do caraças. Sabes disso, não é? Eras uma força da natureza. Quando metias algo na cabeça ias até ao fim. E isso tanto me irritava, quanto inspirava.

As nossas discussões eram sempre acesas. Quando terminavam eu sentia que tinha levado um enxerto de porrada. Contudo, aprendi tanto com elas.

Foste a pessoa que mais acreditou em mim. Mesmo quando eu próprio não acreditava. Tu fazias-me ver a forma como me olhavas. De certa forma, obrigavas-me a querer ser essa pessoa. Não imaginas o quanto me fizeste crescer. O quanto me levaste a sair de uma zona de conforto em que eu estava instalado desde o início da minha existência.

Tantas vezes te quis agradecer por isso. Fui adiando por uma questão de orgulho estúpido e por julgar em que algum dia eu perderia a vergonha e te diria o que significavas para mim. Pensamos que temos a vida toda e num ápice tudo muda…

Conforta-me o facto de saber que foste feliz durante algum tempo e que eu tive alguma responsabilidade nisso. Gostaria que tivessemos tido mais tempo. Desejei tanto isso.

A nossa relação foi curta, mas foi a mais intensa que alguma vez tive. Nunca me senti tão vivo. Nunca me senti tão grato por estar vivo.

Há muito que fiz o luto. Chegou a hora de te agradecer, ainda que a título póstumo. Obrigado por tudo!

Por ti mantenho acesa a chama, esta vontade (tão tua) de querer desfrutar da vida. Sei que te devo isso.

Move to Heaven. Uma viagem emocionante pelo luto e relações humanas.

Mesmo sendo um assunto tabu, a morte é algo que diz respeito a todos nós. A nossa morte e a morte dos que nos é querido. Cada morte trás consigo histórias, algumas delas escondidas em vida mas muitas vezes desvendadas após a partida de alguém.

“Move to Heaven”, uma das recentes series coreanas da Netflix, foca-se nessas histórias. Trata-se de uma firma composta por um pai e filho, com síndrome de Asperger, que fazem “limpeza de traumas”. Ou seja, alguém encarregado na limpeza de locais após a morte de alguém. Além da limpeza, estes recolhem objectos que pertenciam aos falecidos. Objectos que comportam uma história e uma mensagem que é partilhada às pessoas que lhes são queridas. Cartas, dinheiro, extratos bancários, bilhetes, etc.

Além de retratar casos diferentes ao longo dos episódios, “Move to Heaven” tem uma história central que retrata a cura de um trauma e expõe as fragilidades das relações humanas. O proprietário da firma e pai do rapaz com Asperger morre e deixa a guarda do filho para o irmão que o odeia. Com o avançar dos episódios presenciamos à evolução do sobrinho e tio e à descoberta dos motivos que afastaram os irmãos em vida.

É fácil perceber pela descrição que “Move to Heaven” é uma série emocional. E é aí que está o grande trunfo da série, esta retrata as relações humanas de uma forma delicada mas sem ser uma série lamechas. Ao contrário do que várias séries dramáticas coreanas tendem a ser.

São 10 episódios no total que se vêm rápido, que nos emocionam e trazem consigo várias mensagens positivas.

Flash Reviews: O que ando a ouvir em Junho de 2021

Iberia – Much Higher Than Hope

Trata-se de um disco com 5 anos mas que tenho ouvido com maior incidência recentemente. É o disco de estreia de Hugo Soares como vocalista da mítica banda portuguesa. Um voz que representa um claro upgrade em relação aos seus antecessores.

A música também mudou. Agora um Hard’n’Heavy moderno e mais musculado. “Much Higher Than Hope” é um disco recheado de um leque de fantásticos temas, alguns mais orelhudos do que outros. Dentro delas destaco “The End of Days”, “How I Miss You” e “Rising Inferno”.

Com mais de 30 anos de existência, os Ibéria demonstram que estão para as curvas e o seu disco nada deve ao que de melhor se faz dentro do género por esse mundo fora.

Ethereal – Towers of Isolation

Uma review a um álbum com mais de 15 anos? Porque não? Porque os Ethereal estão de volta e porque “Towers of Isolation” É um dos melhores álbuns que o underground nacional já nos deu. Metal progressivo com um toque sinfónico (mais do que o gótico que lhes é associado). Podíamos comparar com os Therion, Opeth e Katatonia mas basta ouvir um pouco de Ethereal para depressa percebermos que o seu som tinha (tem) uma sonoridade distinta.

Composições arriscadas e inteligentes, vozes (fantástico registo de Hugo Soares) que emprestam profundidade dramática a uma linha que alia peso com melodia. Lançado três após o álbum de estreia, “Towers of Isolation” parecia levar a banda para outro patamar mas infelizmente esta entrou em implosão. O seu regresso é uma excelente notícia.

Soundscapism Inc. – Afterglow of Ashes

Sou um confesso admirador dos trabalhos de Bruno A. desde os magníficos Vertigo Steps, passando pelos Architects Of Rain até a Soundscapism Inc..

Este último projecto (não o mais recente) conta com um álbum recentemente lançado e denominado por “Afterglow of Ashes” onde Bruno volta a demonstrar que é mestre em tecer belíssimos tecidos musicais. Detentora de uma melancolia inquestionável, a música de Soundscapism Inc. impressiona pela cinematografia, ambiência e texturas musicais riquíssimas.

Já disse no passado e reafirmo, Bruno A. tem o dom de fazer composições e arranjos requintados e complexos parecerem simples. E faz isso sem amarras a estilos e géneros.

Quanto a “Afterglow of Ashes”, é o mais equilibrado e maduro dos registos lançados até à data.

Bruno faz da música o seu meio de escape preferido e nós devemos estar gratos por isso.

Vincenzo. Provavelmente o K-Drama do ano

Faltam dois episódios para terminar a transmissão internacional de “Vincenzo” via Netflix (em Portugal a série estreia-se na semana seguinte, precisamente a 9 de Maio). Por isso, vou arriscar um balanço sem ver os episódios finais que serão transmitidos este fim de semana.

“Vincenzo” é uma série coreana que mistura humor (por vezes a rondar o nonsense), drama, thriller e ação. Conta a história de um sul coreano que após ser abandonado pela mãe em criança é adotado por uma família que lhe leva para Itália. Em Itália torna-se um consigliere e um dos membros mais temidos de uma família da Mafia italiana. Anos mais tarde regressa ao seu pais de origem para tratar de assuntos pessoais mas acaba por se envolver numa luta contra uma um poderoso e mal intencionado conglomerado.

Se o mote de “Vincenzo” é “apenas um monstro pode vencer outro monstro” a série também traduz uma luta interna do personagem principal em não (voltar a) libertar o monstro dentro de si.

Os primeiros episódios trazem uma série engraçada mas que (aparentemente) custa a engrenar. Ai presenciamos a luta entre um advogado, que dedica a sua vida em lutar pelos desprotegidos contra os poderosos, e o conglomerado atrás referido. Do outro lado da barricada está a filha deste advogado, que trabalha para uma grande firma de advogados e que representa o conglomerado. Até que após o final do terceiro episódio e inicio do quarto as coisas mudam.

Este final do terceiro episódio e o quarto episódio representam uma mudança na série. Representa por isso, um vislumbre do que acaba por se tornar a série. Os primeiros episódios começam numa toada mais leve e humorística mas a partir desta transição a vertente de thriller deste K-Drama começa a ser desvendada até atingir contornos épicos. No entanto apesar da crescente tensão na série os momentos de humor nunca são esquecidos.

Se a série se apresenta a um nível satisfatório na vertente humorística (embora algumas situações de humor me pareçam um pouco forçadas) é na vertente mais dramática e de suspense/ação que “Vincenzo” mais brilha. A série dá a ideia inicial de se tratar de uma sátira aos filmes de máfia mas depressa toma uma caminho muito próprio resultando numa série irreverente e engraçada mas também tensa e visceral (com momentos à John Wick). Para mim a melhor produção do ano em termos de K-Dramas e uma das melhores em geral.

Tremendas atuações de Song Joong Ki (Arthdal Chronicles, Space Sweepers) , Jeon Yeo Been (Night In Paradise) e Taecyon. Sempre muito bem acompanhados pelos personagens secundários.

Nota adicional após visualização do final da série:

Final de “Vincenzo” visto. Um dos finais mais satisfatórios de sempre em séries.

“Vincenzo” representa um marco nos Kdramas, trazendo para as séries coreanas a visceralidade patente nos filmes de gangsters coreanos, conjugando com isso uma comédia quase negra.

Uma das séries mais “full package” que já vi. Comédia, drama, ação, suspense e até um romance (não sendo o foco da série) muito bem entregues.

Deixo aqui mais alguns momentos da série. Podem conter spoilers.

Ry X. Detox Musical

Ry Cuming, reconhecido no meio artístico como Ry X é um versátil musico australiano que afirma ter como grandes influências os Pearl Jam e Jeff Buckley. Contudo, ao contrário destas grandes referências, a musica de Ry X percorre mais os campos do Folk, deambulando pelo Indie, música eletrónica e Dream Pop.

Com uma discografia composta por 3 álbuns (“Dawn” de 2016, “Unfurl de 2019 ” e “Live From The Royal Albert Hall” de 2021) e vários Ep’s e singles, a música de Ry X caracteriza-se por uma delicadeza tremenda, recorrendo maioritariamente a uma base minimalista (viola e/ou piano) ainda que com arranjos arrojados. Bem demonstrativo desta faceta é “Beacon” do álbum de estreia.

Numa altura em que a música parece cada vez mais formatada, músicos como Ry X surgem quase como um Detox musical, em que a emoção e a fragilidade de uma bela voz marcam a diferença em contraste com músicas que mais parecem saídas de uma linha de produção. Neste aspeto, parece-me partilhar alguns pontos em comum com a música dos Bon Iver. Ainda que com uma textura mais rica.

Conto

people on beach during daytime
De Fawaz Buqammaz via Unsplash

Era uma tarde como tantas outras naquele inverno quase primaveril. O sol brilhava e a temperatura estava agradável para um passeio. Um passeio à beira mar a só como tantos outros.

O passeio tinha um fim. O encontro com amigos para uma tarde de copos e muita conversa à mistura. Claro que ele ouvia mais do que falava. Era quase sempre assim.

Encontra os amigos num café à beira mar plantado que era o ponto de referência para muitos encontros e desencontros. Repara que no grupo estão alguns elementos novos. Ele que já não se encontrava com o grupo fazia uns meses. Uns meses que representavam um dos muitos períodos de isolamento auto-infligido. Apesar de ter um ciclo social considerável ele não conseguia evitar de se isolar durante largos períodos.

Não tarda, começam a apresentá-lo ao resto do grupo. Dos novos elementos o seu maior foco está está uma rapariga ligeiramente mais jovem e sempre sorridente. Apesar do esforço ele não consegue desviar o olhar da jovem que sorri para ele. Naqueles momentos a animação existente no grupo é algo difusa e distante. Apenas há espaço para o sorriso da rapariga.

Final de tarde e começam todos a despedir-se e a marcar encontros para a noite. Ele desmarca-se dos encontros noturnos e prepara-se para ir embora quando a rapariga dispara. “Não tenho ninguém em casa e tenciono jantar fora. Ninguém me quer fazer companhia?” De imediato um dos amigos pega-lhe pelo ombro como se ordenasse para fazer companhia à moça. “E-Eu adoraria”. Responde soluçando.

No restaurante as palavras não saem. No principio nem lhe importava muito pois bastava-lhe apreciar o olhar da rapariga à sua frente. O olhar e aquele sorriso irradiante. Com o evoluir do tempo começa a sentir-se desconfortável. “Preciso de dizer algo mas o quê?” Pergunta-se  a si próprio. Ela parece mais confortável e pergunta “Há quanto conheces o pessoal?”. “Ui! Mais de 10 anos. Temos tantas histórias juntos”. E começa a partilhar algumas das aventuras e desventuras daquele grupo de amigos.

Ele insiste em a acompanhar a casa a pé, apesar do percurso ser inverso ao da sua casa. Quando ele se prepara para se despedir, ela abraça-o deixando-lhe desarmado. Ele é invadido pelo doce aroma da rapariga e pelo seus cabelos que pareciam seda. “Obrigado por me fazeres companhia! Gostei muito deste tempo contigo”. Confessa a rapariga voltando a sorrir.

E porque não aprender coreano? Imersão na cultura coreana

안녕하세요

Podem não perceber o que está escrito acima mas estava a cumprimenta-los em coreano. Os caracteres acima leem-se Annyeonghaseyo.

Muito por influência dos filmes e séries do pequeno pais eu acabei por me interessar pela cultura coreana. A sua história mas especialmente a sua cozinha e língua.

A cozinha coreana é muito rica. Em contraste com a “fast food” americana a cozinha coreana é apelidada de “slow food”. É uma cozinha emergente que se tem espalhado pelo mundo. Em Portugal, especialmente Porto e Lisboa é possível encontrar restaurantes coreanos.

A cozinha coreana tem influências da chinesa e japonesa (devido à ocupação) mas tem características muito próprias. Abaixo deixo alguns dos pratos coreanos mais conhecidos.

Destes todos, o Kimchi é o mais popular. Mas ele nem é bem um prato. Basicamente o Kimchi (hortaliça apimentada e deixada a fermentar por longo periodo) é a base da alimentação coreana, servindo como acompanhamento para os vários pratos.

Da cozinha coreana é também conhecida o Korean Barbecue que é um churrasco  de carne de porco ou bife com vários acompanhamentos e também vários pratos à base de marisco (ou não fosse a Coreia do Sul cercada por mar).

Korean Barbecue.

Lightly: Estilo de janelas moderno para o KDE Plasma.

Tive conhecimento já há algum tempo mas resolvi experimentar esta semana o Lightly. Uma decoração para janelas no KDE Plasma minimalista e mais moderno do que o Brisa (decoração por defeito do Plasma) do qual é um fork.

Depois de instalado, o Lightly deve ser ativado no “Estilo de Janelas” dentro da opção “Aparência” na aplicação de configuração do Plasma. O Lightly tem duas opções de configuração, a “Decoração de Janelas Lightly” e “Estilo gráfico Lightly”, que permitem configurar transparência das janelas e menus, além de outras opções (podem conferir no link anterior).

Usei o Lightly com duas opções de cor. Uma escura (Glorious Dark) e uma clara (a da própria Lightly). Eis os resultados 🙂
Lightly com Glorious Dark
Lightly (estilo e cor)

Architects of Rain. Reencontro de talentos.

Bruno A. (Arcane Wisdom, Vertigo Steps, Soundscapism) e Alexandre Santos (Scar for Life, DNA e Stagma). Amigos de longa data, voltam a marcar encontro num novo projeto musical depois da sua longínqua aventura em Redstains. O resultado da junção destes dois versáteis músicos é Architects of Rain, e mais especificamente o EP de 4 temas intitulado por “Ghost Notes” lançado no ano passado.

Ambos fazem-se acompanhar por Usama Siddiq (The D/A Method, Usama Siddiq) e Manuel Costa (Flux, Klepht, além de várias bandas de tributo) para a secção rítmica. Contando também com a colaboração de Tobias Umbach no piano em dois temas.

Gravado, misturado e masterizado entre Berlim e Lisboa,  “Ghost Notes” é um trabalho em que é notória a identidade musical dos seus dois autores. Se o lado mais introspetivo, cinemático e ambiental de Bruno A. que bem conhecemos nos discos de Soundscapism Inc. é mais evidente, a faceta mais elétrica mas melódica dos trabalhos de Alex é também patenteada.

Os 4 temas são autenticas viagens, pérolas musicais para os apreciadores do post-rock/ambient onde o guitarra elétrica coabita em harmonia com a acústica, bem acompanhadas pelos teclados/sintetizadores, ebow, mellotron, além da secção rítmica que permite fluir a música. 4 viagens das quais saímos enriquecidos pelos pormaiores que vamos encontrando. 4 viagens que apetecem repetir sempre que terminam.

Um ano de Covid

people holding shoulders sitting on wall
De Duy Pham via Unsplash

Um ano de pandemia. Um ano de um vírus que virou a nossa vida do avesso. Um vírus que transformou o abraço num risco à saúde, que nos obrigou a fechar dentro de casa, a testar os nossos limites.

As memórias da nossa vida pré-Covid parecem cada vez mais distantes e carregadas de nostalgia. Saudades dos beijos e abraços, dos dias sem mascaras e outros adereços que nos afastam. Saudades das reuniões de família e dos jantares com amigos, do encontro para o café (ou um copo) acompanhado por dois dedos de conversa. Das idas ao cinema, dos jogos de futebol com público. Dos passeios à beira-mar e das noites memoráveis.

O Covid tirou-nos muito. Pessoalmente não foi um ano muito positivo para mim mas comparado com muitos outros casos, em que famílias foram destruídas, sinto-me um felizardo.

Agora é esperar que as vacinas avancem e que nos vejamos livre desta pandemia e voltemos à nossa antiga vida. Ou algo próximo disso…

O Covid tirou-nos muito mas talvez tenha dado algo. Relembrou-nos do quanto a vida é fugaz, e do quanto é importante que a vivamos com a maior intensidade possível. De preferência, sem o receio de demonstrarmos às pessoas que amamos o quanto elas são importantes para nós.

E que em breve nos possamos voltar a abraçar sem receios.